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RESENHA: OUT OF POVERTY - DOZE PASSOS PRÁTICOS PARA SOLUÇÃO DE PROBLEMAS (SOCIAIS), POR PAUL POLAK

  • 10 de fev.
  • 9 min de leitura

Em primeiro lugar queria dizer que acho uma grande pena – e uma grande perda – não termos ainda nenhuma versão deste excelente livro em português. “Out of Poverty”, ou algo como “Saindo da Pobreza”, do americano Paul Polak é um dos melhores e mais motivadores livros quando o assunto é a constante tentativa de encontrar soluções para “erradicar a pobreza”. O mais interessante na postura de Polak, que tem uma excelente palestra no TEDx, é a proposição não de soluções, mas de caminhos e raciocínios lógicos para a solução destas incoerências sociais pelas quais a maioria da população mundial  ainda sofre diariamente.


Em algum outro momento ainda farei uma resenha completa de toda a obra “Out of Poverty”, mas neste momento acho válido destacar o primeiro capítulo, traduzido livremente para o português como “Doze passos práticos para solucionar problemas (sociais)”.  Aqui, o autor compartilha alguns conceitos e diretrizes que vem regendo seu trabalho nos últimos anos, frutos de aprendizado a campo, literalmente. Vou listar os doze e fazer breves comentários em seguida, com o único objetivo de compartilhar aqui algumas ideias bem formuladas e que podem de alguma forma servir de inspiração a todos aqueles que estão em busca de alguma mudança social.


Vá onde a “ação” está;

Converse com as pessoas que enfrentam o problema específico e ouça o que elas têm a dizer;

Aprenda tudo o que você puder em relação ao contexto específico do problema;

Pense grande e aja grande;

Pense como uma criança;

Enxergue e faça o óbvio;

Se alguém já tiver inventado, você não precisa inventar tudo novamente;

Tenha certeza que sua abordagem tem impactos positivos mensuráveis e que podem ser ampliados e ganhar escala. Tenha certeza de que pode atingir um milhão de pessoas e fazer a vida delas, de forma mensurável;

Desenhe/crie/invente para custos específicos e preços adequados a seus públicos –alvo;

Siga planos práticos de três anos

Continuem aprendendo com seus consumidores/beneficiários

Mantenha-se positivo/motivado: não se distraia com o que outras pessoas pensam

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 1.       Vá onde a “ação” está


Segundo o autor, você não pode sentar-se confortavelmente em seu escritório no Banco Mundial ou em no laboratório de pesquisas de uma grande universidade e descobrir o que fazer em relação a pobreza de Myanmar. Fazendo um paralelo conosco aqui em São Paulo, não adianta somente idealizar um negócio social de um escritório na Vila Madalena ou nos jardins, ou propor congressos e seminários fechados entre universitários de classe média e alta para discutir segregação e desigualdade social, ou a pobreza das favelas, sejam elas na periferia ou no centro.  “Eu simplesmente não posso imaginar como alguém pode fazer planos realísticos de erradicar a pobreza ou suprir a demanda de algum problema importante sem visitar os lugares onde este problema esta acontecendo e sem conversar com as pessoas afetadas pelo problema”, conclui.


2.       Converse com as pessoas que enfrentam o problema específico e ouça o que elas têm a dizer


Em 1990, alguns especialistas em agricultura vinham reclamando da postura de microfazendeiros em Bangladesh, pois estavam usando apenas uma pequena porção de fertilizante nas plantações, mesmo tendo um aumento na produção de arroz na temporada de monções.  Se o poder aquisitivo dos fazendeiros crescia, porque então não cresciam também os investimentos? Finalmente, alguém teve a ideia de perguntar para os fazendeiros o porquê de utilizarem tão pouco fertilizante.


“Ora, essa é fácil”, respondeu um dos fazendeiros. “Mais ou menos uma vez a cada dez ano ocorre uma enchente decorrente das monções que nos faz perder toda a plantação. Por isso, cada um de nós gasta em fertilizantes apenas o que se vê disposto a perder no caso de uma enchente como estas”. Sendo assim, a lógica fazia sentido: mais valia se precaver em evitar a perda da plantação toda, do que possivelmente triplicar a produção (mas no risco de perder tudo).


O mais importante deste item é que não basta apenas conversar e fazer perguntas. É necessário estar presente, disposto a ouvir e inclusive a modificar pré-determinações em prol da adequação a questão real. É fundamental compreender que ouvir é um exercício que envolve mais do que apenas receber as ondas sonoras no nosso ouvido, mas estar apto a compreender e agir baseado nesta troca de informações.


3.       Aprenda tudo o que você puder em relação ao contexto específico do problema;


Polak divide sua experiência com as bombas de sucção de água movido por força humana utilizados em Bangladesh. De início, ninguém sabia a profundidade dos poços cartesianos, a distância dos lençóis freáticos, a tipologia mais indicada de agricultura para cada uma das regiões, muito menos o potencial econômico de cada vilarejo. Porém, todas estas questões tiveram que ser sanadas ao longo do tempo, em cooperação com moradores locais e órgãos governamentais ou não.


Tudo o que é compartilhado no livro “Out of Poverty” é fruto de mais de três mil entrevistas com famílias em situação de pobreza. Sendo assim, escutou-se e aprendeu-se com tudo o que se relacionava ao contexto especifico de onde eles vivam e trabalhavam.


4.       Pense grande e aja grande


“Se você aprender sobre um problema real, por meio das pessoas que vivem o problema em seus contextos, fizer perguntas básicas e abrir os olhos para enxergar o óbvio, é bem provável que você surja com ideias com o potencial de mudar o mundo”. Claro, isso pode por um lado ser motivador, mas por outro também muito assustador. Polak divide sua experiência em conseguir enxergar em qualquer microiniciativa, o potencial global de mudança. E afirma que se acostumou com os “rótulos de grandiosidade” que andam junto com pensar grande.


Um pensamento que é comum aos empreendedores de negócios ou a grande empresas é o de procurar atingir grandes parcelas do mercado identificado como foco. Afinal, quando alguém está buscando investimento para um negócio, tenta convencer seu investidor que, se fosse possível, o potencial deste empreendimento é de atingir 50%, 60% ou outras porcentagens ainda maiores do mercado específico. Porém, este é um raciocínio pouco comum às organizações que atuam com desenvolvimento social.


É claro que pensar grande traz o risco de cair feio. Mas o autor comenta que se esta não é uma possibilidade considerada, talvez você deva procurar outra área de trabalho. Para fazer um mundo melhor, desenvolver ou inventar um conceito ou tecnologia é apenas o primeiro passo. O maior desafio é como encontrar um meio prático de colocar esta inovação nas mãos das milhões de pessoas ao redor do mundo que precisam.


5.       Pense como uma criança


Vindo de uma família de refugiados que escapou de ser dizimada pelo regime nazista na Tchecoslováquia, Paul Polak não romantiza a infância. “Mas há uma curiosidade simples e direta na infância e um amor por brincar que tendemos a perder na essência da nossa abordagem de solução de problemas quando adultos. Se você pensar como uma criança, você conseguirá rapidamente destrinchar um problema para seus elementos mais básicos”, afirma.


Enquanto estava tentando desenvolver estratégias para que seringueiros da Amazônia pudessem comercializar nozes secas como formar de incrementar suas rendas. Para além das ideias gigantescas e criativas, ele observou o uso dos fornos de farinha, presentes em quase todas as casas , e percebeu que os mesmos poderiam sofrer algumas adaptações e cumprir a tarefa.  “Se você pensa em como secar algo como uma criança, e não como um engenheiro, você pensa em como aquecer ou ventilar”, e a partir disso fizeram os primeiros fornos-piloto em menos de duas horas.


6.       Enxergue e faça o óbvio


Se não conseguimos ver nossos pontos-cegos, como conseguiremos enxergar e fazer o que é mais óbvio. O autor afirma que lhe demorou muitos anos para perceber esta máxima (e que muitos especialistas em erradicação da pobreza ainda não enxergam). Ele compartilha as experiências de sua organização, o International Development Enterprises (IDE) cujo foco é nos microfazendeiros. Alguns dados: 800 milhões de pessoas  que têm renda inferior a um dólar por dia extraem esse valor de “fazendas” com menos de 1 Acre, muitas vezes divididos em 4 ou 5 áreas de ¼ de acre. E 98% das fazendas da China, 96% em Bangladesh, 87% na Etiópia e 80% das fazendas na Índia têm menos de 5 acres de tamanho total.


Sendo assim, o IDE vem sendo capaz de ajudar mais de 17 milhões de pessoas por perceber que a criação de riqueza nestas fazendas depende diretamente da abertura e acesso a novas formas de irrigação, agricultura, mercados e design.


 7. Se alguém já tiver inventado, você não precisa inventar tudo novamente


Normalmente, hesita-se em usar ideias de outras pessoas ou lugares. O autor fala de diversos lugares onde se deparou com a síndrome do “não-inventamos-aqui”. Porém, uma simples pesquisa ao redor do mundo (aqui vale sim usar a Internet) para saber se alguém já descobriu ou usa uma solução específica para o problema que busca resolver mais rápido e fácil de trabalhar do que sempre tendo que inventar algo do zero.


O interessante é o exemplo dado: Polak acreditava ter descoberto um jeito novo e inteligentíssimo de irrigar plantações fazendo pequenos buracos na mangueira e deixando gotas de água regarem as plantas. Descobriu logo em seguida que os israelenses haviam desenvolvido esta técnica 35 anos antes e a chamavam de Irrigação por Gotejamento (“Drip Irrigation”). A partir daí, decidiu aprender tudo o que podia sobre esse sistema e começou a desenhá-lo para cortar custos e readaptá-lo para pequenas plantações (afinal, o sistema representava apenas 1% das plantações irrigadas, devido ao tamanho, complexidade e custo)


8. Tenha certeza que sua abordagem tem impactos positivos mensuráveis e que podem ser ampliados e ganhar escala.


Quantas pessoas poderão se beneficiar de um projeto de desenvolvimento se ele provar seu sucesso? É com essa pergunta que Polak abre a discussão sobre impactos, avaliação e escala. Seu exemplo vem da Somália: enquanto a Organização Mundial do Trabalho esforçava-se em um projeto de produção de sabonete junto às refugiadas, como forma de gerar-lhes renda e auto-estima, Paul Polak questionava alguns pontos desse projeto. O produto final era mais caro do que se fosse importado o sabonete mais fino de Paris; por outro lado, as refugiadas não podiam então acessar os mercados locais, o que impossibilitaria a continuidade do projeto após a eventual saída da OMT.


Ao mesmo tempo, alguns refugiados poderiam aumentar seus mercados se conseguissem salgar ou defumar os peixes que pescavam (já que refrigeração não estava disponível). Mas todos os pescadores precisavam também de transporte mais rápido e a um custo acessível. Sendo assim, o desenvolvimento de carrinhos puxados por burros foi uma solução muito mais simples, barata e efetiva para a região.


9. Desenhe/crie/invente para custos específicos e preços adequados a seus públicos –alvo


Assim como no caso da Organização Mundial do Trabalho na Somália, muitas organizações voltadas para o desenvolvimento se esquecem de pesquisar qual seria o custo e o preço final do produto desenvolvido para que ele se adapte perfeitamente ao mercado local. Mais para frente em seu livro, Paul Polak discute a importância de “desenhar para os outros 90%” (tema que será abordado em outro texto mais para frente).


A ideia essencial é desenhar, adaptar, criar ou inventar algo com objetivos pré-estabelecidos, forçando-se a ser criativo o suficiente para alcançar o resultado obtido. Um exemplo dessa forma de “design thinking” é o projeto 300$ House[1], no qual estipulou-se o valor final (U$300) e algumas outras diretrizes para se desenvolver uma moradia que fosse financeiramente acessível e completa. O processo foi totalmente colaborativo.


10. Siga planos práticos de três anos


Você pode ter um plano de mudar o mundo, com uma visão incrível do futuro, mas se você não puder chegar em um plano concreto para os próximos três anos, não chegará a lugar algum. Este plano, não deve nem ser excessivamente ambicioso, pois corre-se o risco de falhar antes de chegar ao objetivo final,  nem muito abrangente e não consolidar as bases necessárias para dar escala quando for a hora.  Nem tão grande, nem tão pequeno. Do tamanho certo.


11. Continuem aprendendo com seus consumidores/beneficiários


O autor divide o processo de aprimoramento dos sistemas de irrigação por gotejamento de baixo custo. Tendo suas atividades iniciais no Nepal, Polak conta que de início as vendas foram significativas, mas que os números começaram a cair logo no ano seguinte. A equipe de campo do IDE percebeu que muitos fazendeiros que haviam comprado os sistemas estavam usando apenas uma pequena parte do produto.


Depois de algumas entrevistas com fazendeiros, percebeu-se que a maioria cultivava milho ou painço (milho-míudo) e não estavam acostumados a agricultura intensiva que um sistema de irrigação poderia propiciar, fazendo crescer vegetais fora da estação. A equipe de Pokhara, convenceu o escritório nacional em Katmandu, que convenceu Polak sobre a necessidade de oferecer treinamento aos fazendeiros para que tirassem melhor proveito do produto. Isto nunca teria acontecido se não fosse uma prática diária ouvir aos consumidores/beneficiários.


Segundo o autor, tudo o que fez, criou e desenvolveu nos últimos anos vem de conhecimentos adquiridos junto ao seu público-alvo, normalmente fazendeiros de baixíssima renda e poucos recursos.


12.  Mantenha-se positivo/motivado: não se distraia com o que outras pessoas pensam


Este com certeza é um ponto chave na vida de muitos empreendedores sociais e pessoas que estão em busca de algo “fora da caixa”. Primeiro o autor conta sobre sua empreitada por um gerador de energia elétrica fosse mais acessível do que o modelo movido a diesel de U$500. Sua ideia era desenvolver um que utilizasse forragem de animais e custasse apenas U$125.


Depois, compartilha suas experiências com sistemas de irrigação por gotejamento de baixo custo para microplantações familiares. Se fosse possível baixar drasticamente o preço e aumentar de forma significativa o acesso e as aplicações do sistema, uma revolução poderia ser iniciada. Em ambos os casos, Polak ouviu de muitos que “se isto fosse de fato uma necessidade, o Mercado já teria se prontificado a desenvolver o produto”.  Se o carro de U$500 de Henry Ford e o computador de U$2000 de Jobs e Wozniak foram frutos de certa teimosia de alguns empreendedores até que alcançassem seus objetivos e sonhos, por que no caso da erradicação da pobreza a mesma lógica não se aplicaria?




[1] não comentado no livro, minha colaboração


1 comentário


Hap Rirt
Hap Rirt
10 de fev.

The emphasis on listening to those directly affected by poverty feels crucial—solutions need real-world insights, not just theoretical plans. toppsychicreviews mysticsense

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