Por que não falar em "Base da Pirâmide"
- 10 de fev.
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Ajudar as pessoas que estão na base da pirâmide. Empreender negócios para as pessoas que estão na base da pirâmide. Criar produtos e serviços acessíveis às pessoas na base da pirâmide. Melhorar a experiência de consumo e as condições de vida das pessoas na base da pirâmide.
Qual base e qual pirâmide?
A maioria das pessoas que atualmente se refere à base da pirâmide se baseia no livro de C.K. Prahalad “A Fortuna na base da pirâmide” para se referir a uma população em situação de pobreza ou com baixo poder aquisitivo. Esta população poderia ser então enxergada como mercado consumidor – ou mesmo produtor – para integração à economia formal e potencialmente gerar um negócio que muda o mundo e pode gerar lucro.
Defendo um ponto para que ninguém que esteja realmente interessado na construção de uma sociedade mais justa e menos desigual, focado no tema da transformação social e mudança do mundo utilize o termo base da pirâmide. A pirâmide a qual Prahalad se refere é uma divisão de faixas de renda especificadas em seu livro – e previamente em um artigo co-escrito com Stuart Hart para a Strategy+ Business -, e posiciona mais de 4 bilhões de pessoas na base desta pirâmide, com poder aquisitivo de menos de R$1.500 dólares por ano (segundo a figura a seguir):
Porém, esta é apenas uma versão da pirâmide econômica e social a qual estamos nos referindo direta ou indiretamente quando tratamos dessa abordagem. A pirâmide representa uma sociedade não só dividida em termos econômicos e demográficos, mas também um sistema que reforça as desigualdades impostas pelo modelo capitalista vigente, legitimando, de certa maneira, a manutenção de uma forma de pensar hierárquica onde há posições diferenciadas para cada um nesta nossa sociedade.
O Feudalismo e o Antigo Regime assumiam uma sociedade estamental, baseada em estruturas estáveis e praticamente imutáveis onde cada um ocupava uma função social determinada por nascimento, com pouca ou nenhuma mobilidade entre os chamados estamentos. A mesma pirâmide social, se observada com a ilustração de pessoas ao invés de números apresenta uma conotação muito menos interessante para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. Como estes exemplos:
Usar a expressão base da pirâmide é reforçar uma visão de sociedade hierárquica, com juízo de valor implícito sobre o papel de cada grupo social na manutenção de um status quo que praticamente garante a manutenção de posições sociais e não quebra paradigmas, não propõe mudanças sistêmicas e não constrói um novo modelo de sociedade inclusiva e igualitária.
No mínimo, ao se falar sobre esta pirâmide, seria importante situá-la no tempo atual e esboçar alguma visão da nossa sociedade não-piramidal pós intervenção. Ou seja, hoje vivemos em um contexto em que mais de 4 bilhões de pessoas vivem na base de uma pirâmide, mas no futuro acreditamos que com nossas intervenções essa pirâmide deixará de existir, se transformando em uma representação mais igualitária e bem distribuída.
Mesmo quando as intenções são positivas, como atender uma população com pouco ou nenhum acesso a produtos e serviços essenciais usando a lógica de mercado, usufruir de uma premissa preconceituosa, baseada em uma visão de mundo que não oferece espaço para uma mudança sistêmica e não enxerga o outro como igual e detentor dos mesmo direitos pode muito provavelmente enveredar a atuação e distorcer objetivos e resultados da intervenção. Meu medo é que a “atuação social” reforce o lugar de cada um nesta sociedade, dando um peso desleal a visão de “quem ajuda ou apoia” sobre o “outro que precisa de ajuda”.







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